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ato e efeito de blogar

Lixo e hipocrisia

O amplamente divulgado caso da greve dos funcionários terceirizados da USP, sucedido pelos protestos dos mesmos (auxiliados por alunos), confirma várias de minhas opiniões em vários sentidos. Sem entrar no mérito da ação, que envolveu basicamente espalhar o lixo da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) pelos corredores e salas, o caso é bom para demonstrar o quanto o discurso pretensamente esquerdista de boa parte dos alunos e professores é hipócrita, e só vale enquanto não os atinge diretamente.

A manifestação é um típico ato arbitrário que prejudica as condições de convívio e instaura a desordem. Entretanto, suas motivações correm o risco de serem elididas pela “espetacularidade” do caso. Como sabem, os terceirizados, que já recebem um salário de fome sem ninguém que os ajude a buscar condições mais dignas, tiveram seus salários e direitos trabalhistas atrasados desde março. A USP (ciente do problema já há mais de 20 dias) fez que pagou, mas depositou o valor em juízo para a empresa de limpeza. Esta não o repassa aos funcionários por ter contas bloqueadas devido ao não pagamento de tributos. Enquanto isso, os que recebem menos de um salário mínimo (devido aos descontos) estão sem nada.

Discordar da forma de manifestação é direito de todos, e não é algo assim tão absurdo, pois não há quaisquer indicações seguras de que espalhar o lixo pela faculdade garantirá algo ou levará a alguma medida que beneficie os funcionários. Em boa medida, os atrapalhará irremediavelmente, por meio das famosas “listas negras”. Espera-se, no entanto, o mínimo de solidariedade com as pessoas que, mesmo que estejam equivocadas em promover a desordem, ainda necessitam de seus mais do que merecidos e injustamente baixos salários.

Qual o quê! A comunidade da FFLCH, em boa medida a de Letras, que conheço melhor e onde estudei, está “enfezadinha” com os terceirizados. Repudiam a arbitrariedade do ato, e se manifestam favoráveis ao protesto, mas não à sua forma. “Apoiam” os funcionários, mas não quando eles jogam lixo no chão. E aí?

A escolha de muitos foi parar no repúdio. No orkut, aqueles que têm acesso poderão ver do que se trata: uma quantidade de posições calcadas no “proteste, mas não me atrapalhe” que não consegue ver além de suas próprias posições mesquinhas. Para eles, crianças que podem estar passando fome são menos importantes que suas aulas e seu tênis que pisará em papéis. Mas o que se aprende mesmo nas aulas?

Ah, sim. Os professores. Estes são um caso à parte. Uma decisão colegiada dos chefes de departamento resolve copiar seus alunos mais “brilhantes” e definir por um repúdio aos atos dos funcionários. Anunciam solidariedade, mas dizem que manterão as aulas porque os meios são moralmente condenáveis. Olhem só que beleza:

A FFLCH é conhecida (…) por suas posições firmes na defesa dos direitos constitucionais democráticos e dos princípios consagrados nas convenções dos direitos humanos. Somos – docentes, alunos e funcionários -, como não poderíamos deixar de ser, solidários com as vítimas de graves violações de direitos, em especial os direitos trabalhistas.

Esta posição firme e inquestionável não implica, sob qualquer hipótese, a aceitação de meios inadmissíveis para garantir direitos, que apelam para o uso ou ameaça de uso de força e de meios de ação moralmente condenados como vandalismo e depredação dos espaços públicos. Menos ainda aceitáveis quando provêm de agremiações sindicais, partidárias ou de segmentos minoritários dos estudantes, julgando a si próprios e procedendo como se fossem os únicos porta-vozes autorizados a falar em nome dos injustiçados.

Por tudo isso, manteremos as aulas e o curso normal das atividades. Colaboraremos, no que nos for de competência, para que o conflito trabalhista possa ser resolvido no menor prazo possível. Ao mesmo tempo, não toleraremos que o vandalismo obscureça toda uma longa história de êxitos e de reconhecimento público. [grifos meus]

É a queda de máscara. O discurso foi bonito enquanto durou. Os professores que há tanto defendiam posições sociais contundentes, mas esbarravam na velha dissociação entre teoria e prática, tiveram uma oportunidade ímpar de fazer valer suas preferências. E aqui, mesmo contrários aos métodos utilizados, a solidariedade ampla e irrestrita não era uma resposta difícil para eles. Não implicaria nenhuma concessão difícil, nada que não fosse menos importante que a situação dos funcionários. Mas a escolha foi feita.

Lembrei-me de Adorno sendo obrigado a chamar a polícia em 1969. Acho que ele tinha razão, mas não dá para negar que foi um baque e uma contradição muito forte em relação ao que ele já havia escrito. Talvez por ele ter exagerado um pouco na atitude ou nos escritos. Ou ambos. Não importa: a realidade apresentou-se de modo diferente do previsto. Aqui, na USP, a realidade brotou a partir de atos lamentáveis, mas compreensíveis. A resposta daqueles que dizem ser solidários foi “não mexeremos uma palha em nossas atividades, pois vocês foram muito maus meninos”.

O que era opinião minha virou fato: na hora do “vamos ver”, a democrática FFLCH prefere dar as costas àqueles que diz defender continuadamente. Já se disse muitas vezes que é difícil defender a liberdade de expressão para aqueles que repudiamos. A variação fefelechenta diz que não se defende os funcionários quando estes não agem de acordo com as regras.

Uma Resposta para Lixo e hipocrisia

  1. LM 15/04/2011 às 15:07

    Então por que você mesmo não escreveu um post defendendo o protesto dos faxineiros? Você ficou em cima do muro tanto quanto os professores, acarinhando ambos os lados.

    Eu me pergunto em que contexto seria aplaudível que professores de humanas defendessem atos de vandalismo, como você deseja. Uma coisa é simpatizar com a “ideologia proletária”, outra é ter compromisso de ladear com toda e qualquer porralouquice que venha das castas inferiores, só pelo fato de delas vir.

    O raciocínio que sustenta o seu post é o mesmo que há algumas décadas tem transformado as universidades brasileiras em celeiros da ignorância: aquele segundo o qual, antes de ser professor, o catedrático é um militante de esquerda e tudo, absolutamente tudo na vida tem, como por natureza das coisas, de convergir para a revolução social, que vem antes de todo o resto.

    O problema não é, como você coloca, os professores se afastarem da causa no fim das contas, e sim se ocuparem dela (ocuparem seus discursos) em qualquer momento. Que a situação dos terceirizados é injusta todos concordamos (inclusive sua situação normal, não só essa atípica), mas definitivamente o caminho para a melhoria desconhecem-no os nossos militantes de esquerda.

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