Já há algum tempo as pessoas em geral acham no mínimo divertido quando faço comentários extremamente apologéticos às animações clássicas da Disney. A maioria não espera que alguém minimamente versado no “cinema de arte” aprecie e admire tanto produções vistas como simples, feitas para crianças.
Muitos se esquecem que Hitchcock, por exemplo, não era considerado um grande diretor até o pessoal da Cahiers du Cinéma (especialmente Truffaut) apontar sua genialidade na composição de cenas, sua mestria na narração e sua incrível capacidade cinematográfica. Por muito tempo Hitchcock foi considerado entretenimento barato, mas o resgate crítico francês possibilitou que as pessoas vissem Rear window e North by northwest como o que são: verdadeiros clássicos.
Com as produções mais clássicas da Disney o caminho foi oposto. O grande negócio em que se transformou o cinema de animação, somado a uma crise criativa que atravessa três décadas, ajudou a cristalizar a noção de que o cinema da Disney era apenas uma forma de caça-níqueis infantil, destinada ao consumo breve.
Outro motivo para o demérito dado às animações da Disney está no fato de termos visto quase todos os filmes em nossa infância. Quem ainda considera seu antigo forte apache uma peça admirável arquitetonicamente? Os grandes filmes da Disney passam para uma memória afetiva, associados para sempre a um padrão que reputamos inferior às preocupações “sérias” da vida adulta. Como colocar em um mesmo cesto os filmes de Bergman e os desenhos animados?
Não, não proponho isso. Não se compara filmes tão desiguais, e mesmo a melhor animação da Disney não atingiu um nível tão alto de excelência, se o compararmos com Persona. Mas a necessidade de olhar os filmes como o que são, e não apenas como se comportam mercadologicamente, ainda se impõe. E, assistidos com atenção, esses filmes revelam composições dignas de figurar no rol das maiores obras do cinema.
A Era de Ouro (1937-1942)
Tudo começa com o primeiro longa-metragem que Walt Disney produz, Branca de Neve e os Sete Anões. As técnicas de produção do filme são um capítulo à parte, mas não me sinto tão confortável em comentá-las. Prefiro apontar o fato que o filme simplesmente inventa a narratividade Disney, e aqui não falo dos aspectos mais superficiais, como números musicais e uso de contos de fadas.
A dinâmica do roteiro sempre em conjunto com a composição do cenário (pensem na cena em que Branca de Neve se perde na floresta), a presença de coadjuvantes que marcam, seja pelo alívio cômico ou pelo conflito moral (no caso, os anões e o caçador, respectivamente), a incorporação da tensão narrativa de modo absolutamente original para um produto “infantil” (comparem com os desenhos da Warner)… Todos esses fatores fariam parte das produções da Disney até o fim, e boa parte de seu sucesso comercial deriva de sua observância.
Os filmes seguintes, embora mantenham a fórmula em vários níveis, introduzem, cada um a seu modo, novas características à estrutura básica. Pinóquio trabalha fortemente a lição moral, algo que se tornaria uma constante; Jiminy, o grilo falante, é uma daquelas sacadas geniais, em que a consciência do ser em formação se encontra fora dele, e em desencontro com suas pulsões. Esse desencontro leva à desventura, que termina bem quando há a compreensão das limitações e a aderência aos bons conselhos. É o primeiro filme que investe no papel formador do cinema infantil, com grande sucesso.
Em seguida, vem Dumbo e Bambi. Ambos prenunciam questões do presente (no primeiro o bullying e no segundo a preocupação ecológica), mas vão muito além do papel de arautos do contemporâneo. Em Dumbo o indivíduo inadequado precisa se encontrar numa busca pelo inédito, a fim de libertar-se dos defeitos que a sociedade lhe confere. A forma de alcançar este resultado não é edificante, por mais triunfo que exista no final; o investimento aqui é fortemente emotivo, e o personagem que não diz uma palavra no longa se expressa através de suas ações e expressões.
Bambi, uma pequena obra de arte na forma de desenhar cenários deslumbrantes, carrega o primeiro choque traumático imposto pelos filmes de Walt Disney: a morte da mãe de Bambi. A tensão que em outros filmes era expressa em momentos temporários (o envenenamento de Branca de Neve, Pinóquio engolido pela baleia e a mãe de Dumbo enjaulada) agora é pela primeira vez definitiva, assumindo uma outra dimensão. À parte os outros méritos, Bambi é um filme que estabelece um rompimento de “boa expectativa” dentro da narrativa, uma fissura que só seria retomada com êxito em Rei Leão. Não é pouco.
Deixei Fantasia para o fim por ser um filme sui generis. “Um erro”, disse Walt Disney, transformado posteriormente em um dos maiores clássicos do cinema, Fantasia dá um show de expressividade em histórias simples mas significativas e, à moda do estúdio, de fundo moral. Em alguns casos, a música parece ter sido feita para o desenho, e não o contrário. Isso mostra o tamanho do acerto.
A Era de Prata (1950-1959)
Excluo da base os filmes musicais feitos na década de 40, como Los tres amigos, por serem mais um conjunto de desenhos menores pensados individualmente, com personagens que se tornaram conhecidos muito anteriormente ao início da produção de longas. A retomada do padrão Disney se dá com Cinderela, seguido por Alice no País das Maravilhas, Peter Pan, A Dama e o Vagabundo e, por fim, Bela Adormecida.
Não são filmes tão bons quanto os 5 primeiros. Antes de um esgotamento precoce da fórmula, parecem na verdade padecer da falta de força de seus enredos dentro da estrutura consagrada em Branca de Neve. Mantém-se a alta qualidade técnico, mas sem o brilho. Ainda assim, rendem uma cena antológica (o beijo de macarrão de A Dama e o Vagabundo), um dos maiores símbolos da Disney até hoje (o castelo da Cinderela), um dos vilões mais carismáticos (Capitão Gancho) e a trilha magnífica de Tchaikóvski para Bela Adormecida.
Hoje se acusa a versão Disney de Alice de causar a “infantilização” da história perturbadora de Lewis Carroll, não sem boa dose de razão. Mas, apesar dos pesares, a adaptação consegue reproduzir bem o tom estranho do livro, embora bastante suavizado. Penso na elaboração visual de personagens como o exército de cartas, o Gato e a Lebre de Março, bem como de cenas como o dilúvio que se segue ao “Coma-me” e a cena das flores. Essa evolução visual acompanharia as produções Disney até a Pixar forçar uma mudança drástica.
A Era de Latão (1960-1989)
O que eram contos morais elaborados tornam-se moralismos constrangedores; o que eram coadjuvantes de relevo tornam-se engraçadinhos que são o real foco do filme; o que eram boas ideias de roteiro são apenas cópias da estrutura piegas de outras histórias. Diversos filmes evidenciam a queda brusca de qualidade, como A Espada era a Lei, Robin Hood ou Aristogatas. Um filme do qual muitos gostam, mas eu particularmente acho fraco, xoxo, é 101 Dálmatas.
A lista prosegue com Mogli – o livro da selva (uma adaptação mediana de Kipling), Ursinho Puff (que nem parece filme Disney, com sua ingenuidade padrão Teletubbies), até chegar em Bernardo e Bianca (The Rescuers), o único filme bom da Era de Latão, justamente por resgatar algumas características de filmes dos bons tempos. Ainda assim, a fatura é desigual, com a vilã pouco convincente e a desnecessária sequência.
Errr, alguém aí viu O cão e a raposa, O caldeirão mágico e Oliver e sua turma? Eu vi, e não verei de novo tão cedo. Filmes que copiam os piores filmes antigos, como Aristogatas e A Espada era a Lei. Menção honrosa para O Ratinho Detetive, que pelo menos adapta Sherlock Holmes para a gramática da animação. Não sem muito brilho, evidentemente.
Uma nova Era de Ouro (1989-1994)
Começou com A pequena sereia, o maior sucesso da Disney desde Bela Adormecida. Um filme do qual nunca gostei, embora reconheça o mérito da volta dos números musicais divertidos. Mas é um filme oco, belo apenas em sua criação do ambiente marinho. Tem o mérito relativo de ter impulsionado uma nova busca por histórias diferentes do usual (notem que até então as histórias eram ou de contos de fadas ou inglesas). Essa busca deu-nos os três melhores filmes de animação recentes até Wall-E.
O primeiro foi A Bela e a Fera, até hoje meu filme preferido da Disney (não quer dizer que eu ache o melhor), um conto moral maravilhoso que investiu na formação psicológica de seus personagens como só Pinóquio e Bambi haviam feito. Talvez até melhor. A jornada da Fera em busca de aceitação, só satisfeita quando ele deixa de acreditar em sua visão egocêntrica do mundo, contraposta ao mundo vaidoso e sem auto-crítica de Gaston, até hoje ressoam em nosso caráter. A Bela e a Fera foi a primeira animação a ser nomeada ao Oscar, perdendo para O Silêncio dos Inocentes (eu prefiro o filme da Disney, mas entendo a derrota; quem não entenderá vai ser o leitor deste texto que adora o filme do canibal, do qual também gosto muito).
Depois veio Aladdin, a maior aventura da Disney desde Dumbo. O Gênio é um personagem inesquecível, como Iago. Mas o foco é nas peripécias do herói; trata-se de um filme ágil, jovial, bem-humorado e capaz de algo que geralmente só o cinema de ação proporciona: a identificação do espectador com as ações do personagem, não com sua psicologia. Um contraponto interessantíssimo ao clima soturno de A Bela e a Fera, Aladdin é um filme solar, e se beneficia imensamente da composição gráfica da Arábia, até hoje icônica.
Mas é no terceiro filme que a Disney encontra seu maior sucesso: O Rei Leão, fruto de uma confluência felicíssima de tudo que deu certo nos longas anteriores. Há um conto moral forte, que se integra diretamente com um discurso altamente político e social. Um enredo de inspiração shakespeariana que se resolve em um processo de conhecimento do herói. É, em muitos sentidos, uma inversão da tragédia clássica: o herói descobre que sua culpa não lhe cabe (ao contrário do reconhecimento como foi teorizado por Aristóteles), tendo sido justamente a inércia (e não a hubris) a causa do mal, que será expiado no confronto com o passado. Além disso, a força mítica de passagens como a abertura monumental, ou o desenho de Simba na árvore feito por Rafiki, une-se harmoniosamente com dois personagens memoráveis cuja despreocupação é tratada como uma “problem-free philosophy”: Timão e Pumba.
Sobre esses filmes dá para fazer uma tese. Mas a Disney voltou aos erros depois de O Rei Leão. Conseguiu produzir filmes ainda mais fracos do que os da década de 60: Pocahontas, Mulan, Tarzan, Hercules… E esses eram baseados em outras histórias, o que talvez tenha impedido um fracasso monumental. Este viria em A nova onda do Imperador, Atlantis, Lilo & Stitch…
Mas neste momento a Pixar já estava produzindo desenhos aprimoradíssimos tecnicamente e com qualidade de roteiro no mínimo comparável à Era de Prata Disney. Não à toa, em conjunto com a Disney, chegou-se a pequenas joias, como a trilogia Toy Story, o tocante e deslumbrante Procurando Nemo, o simples mas honesto Ratatuille. Um dos melhores filmes de super-heróis se fez ali (Os Incríveis) e, por fim, uma das maiores obras do cinema nesta década que passou: Wall-E, um filme absolutamente perfeito que resgata a história do cinema e, em grande medida, a história da Disney.
Espero que meus leitores que estavam céticos no começo do post (“lá vem o cara falar que filme infantil é obra-prima do cinema”) tenham se lembrado dos filmes e sabido reconhecer não apenas suas qualidades, mas o real tamanho de sua importância para a história da recente sétima arte. No caso dos oito filmes que abordei mais de perto, o tamanho é bastante grande.
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1) O senhor esqueceu-se de colocar “Fantasia 2000″ dentro da Era de Ouro. Não consigo entender quem diz que o original é melhor. Só a parte de Rhapsody in Blue já detona pelo menos metade do “Fantasia” original!! Não digo que o original é um lixo; só que o 2000 o superou.
2) Diga-se em defesa da WB que ela teve um “crowning moment of awesome” comparável aos Fantasias: http://www.youtube.com/watch?v=MQlmXU1zqfc.
3) Desculpe-me a ignorância, mas o Bee Movie também é da Disney? Achei-o excelente!
1) Sabe que nunca vi o 2000 inteiro? Mas o Gershwin ficou mesmo fenomenal, em todos os sentidos. http://www.youtube.com/watch?v=LK3QlB2W5lY&feature=fvwrel
2) Não desgosto da WB – e esse vídeo é ótimo! Apenas caracterizo a diferença entre os estilos. E a verdade é que os longas da Disney incorporaram uma complexidade narrativa que WB e Hanna e Barbera sempre deixaram de lado, investindo quase exclusivamente no filão infantil.
3) Apesar de Seinfeld, não vi Bee Movie, que é da Dreamworks (a mesma de Shrek e Como treinar seu dragão). Há também os filmes recentes da Disney em CGI, mas eles copiam a estrutura narrativa sacramentada pela Pixar (que por sua vez atualizou o modelo Disney das antigas).