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Argumentações sobre o cânone literário

Falar do cânone literário no Brasil é sempre uma atividade controversa. De um lado teremos os que possuem uma noção fechada de cânone, usando-o como fator de legitimação dos autores que são nele incluídos. De outro, os que acusam o cânone de negligenciar autores de qualidade por motivos não literários. Claramente entrará aí uma questão de definir o que é literatura, o que é boa literatura e o que é e para que serve um cânone. Abster-me de responder a primeira e a segunda questões pode parecer anti-metódico, mas prefiro partir da hipótese de que um cânone nada mais é do que uma forma de responder as perguntas acima, e a reflexão a respeito de um cânone leva necessariamente a uma concepção de literatura. Portanto, direi primeiro o que considero cânone e qual seria sua função.

Em primeiro lugar, não é correto tratar o cânone como uma categoria estanque e arbitrária. No limite, o cânone estabelecido pode marginalizar autores e barrar seu desenvolvimento e/ou seu reconhecimento. Evidentemente, as consequências seriam visíveis no campo literário, o que não impede que autores outrora desprezados venham a ficar em alta em certos momentos. O grande exemplo, e talvez paradigmático, é o de Shakespeare, que após o sucesso popular em seu tempo amargou um ostracismo, do qual foi resgatado por Samuel Johnson. Por outro lado, autores tão celebrados quanto Shakespeare em sua época (casos de Marlowe e Ben Jonson) não são hoje considerados mestres da literatura inglesa, tendo importância sobretudo histórica.

Se falo de Shakespeare como um provável paradigma, é devido aos motivos de seu ostracismo: o não-ajustamento de suas peças às noções clássicas, prioritariamente aristotélicas, de composição. Nota-se que nesse caso o cânone surge como o grupo de autores que, através dos tempos, melhor reproduziu e adaptou modelos e convenções greco-latinos. O Romantismo ajudou a dissipar essa configuração, instituindo como motivo principal da literatura a expressão do sujeito. Logo, os modelos seriam gradualmente substituídos pelos conceitos que, através dos séculos, hoje permeiam correntes críticas por todo o mundo ocidental. Hoje se costuma avaliar uma obra de acordo com o que é chamado “leis internas de composição”, ou seja, a intenção formal e conteudística da obra é abstraída e considerada a chave para a leitura e avaliação de um romance ou um poema.

Nesse conceito outros podem ser acrescidos, como por exemplo a análise da relevância social da obra (predominantemente marxista), sua força interpretativa do inconsciente humano (geralmente a crítica psicanalítica), sua relevância para a visão da moral humana (geralmente críticas de viés mais conservador), etc. Os cânones, nesse caso, seriam abertos à inclusão de quaisquer obras que tivessem alcançado algum sucesso em sua intenção, cabendo à corrente crítica o juízo a respeito de suas outras qualidades.

Entretanto, o cânone existe enquanto fato objetivo. Não é apenas a ideia abstrata de uma certa tradição (conceito difícil de definir) literária, mas reverte-se em outras coisas, que por vezes se tornam fins em si. Um bom exemplo, e talvez o mais visível, seja o dos livros didáticos. Embora exista uma dificuldade enorme em definir qual é a real utilidade do ensino de literatura nos ensinos fundamental e médio, o fato é que há um cânone estabelecido para orientar os alunos sobre quais são os livros brasileiros essenciais a um estudante – e frequentemente serão requisitados em vestibulares.

Esse cânone tende a ser muito mais fechado do que os que são formados pelas correntes críticas hodiernas: em primeiro lugar, estas estão em sua maior parte na academia, ou seja, pautam os estudos de nível superior, e não têm alcance imediato nos currículos escolares; em segundo lugar, o cânone escolar faz parte de uma lógica de ensino que pressupõe um controle e uma estabilidade maiores, até por questões logísticas.

Em outros posts, pretendo desenvolver mais esse assunto, considerando eventuais discussões e melhorias propostas nos comentários.

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2 Respostas para “Argumentações sobre o cânone literário

  1. Emmanuel 18/12/2009 às 18:59

    Vinícius,

    Cabeluda essa questão do canône, hein? Para mim, a relação entre produção acadêmica e os autores estudados no Ensino Médio é mais direta. Os autores que integram o ensino de literatura no Ensino Médio são geralmente aqueles que tem maiores chances de cair no vestibular das universidades mais prestigiadas, vestibular cujas provas são compostas por professores de tais instituições. No caso da USP e da Unicamp, as obras cobradas são aquelas que integram um cânone já estabelecido e pouco controverso, fixado por uma tradição de estudos de história literária que remonta à segunda metade do século XIX. Autores como Joaquim Norberto, Sílvio Romero, José Veríssimo, Mário de Andrade, Antonio Candido e Alfredo Bosi talvez sejam os principais responsáveis por esse canône mais estável que temos hoje e que se reproduz no Ensino Médio. Os autores relevantes no meio acadêmico são geralmente os autores estudados no Ensino Médio.

    Mas é claro que há “canônes alternativos”, como aquele proposto pelos concretos, e que têm também influência no Ensino Médio graças à instituições renomadas como a PUC e as universidades cariocas; embora até hoje não se tenha emplacado o estudo de Sousândrade, por exemplo. Acredito que aqueles cânones mais estáveis, mais solidadamente estabelecidos nas principais instituições, são os que determinam o conteúdo estudado no Ensino Médio.

    Há, sim, uma relação entre produção acadêmica e o Ensino Médio, pois lembro que o material do Anglo trazia a ideia de “princípio de corrosão” para tratar da poesia do Drummond, princípio formulado por Luiz Costa Lima; quando se estuda Clarice Lispector, vemos algo de existencialismo e de psicanálise, tudo saído do estudo literário feito nas universidades. O que acontece é que a produção acadêmica demora mais para se sedimentar no Ensino Médio, pois leva tempo para que uma discussão se consolide a ponto de os autores de material didático a incorporarem em seus livros; discussões ainda muito quentes e abertas a controvérsias têm pouca probabilidade de chegarem aos alunos do Ensino Médio. Não se pode esquecer que o material didático é feito por professores informados pelo debate acadêmico e de olho nas provas do vestibular.

    Dito isso, não sei se diferentes correntes críticas fundam canônes diferentes. É preciso, a meu ver, um esforço institucional maior, como o realizado pelos concretos, para propor um cânone alternativo. Geralmente, críticos ligados ao estruturalismo, à psicanálise, à sociologia e aos estudos culturais costumam partir de um mesmo cânone, pelo menos no que se refere à literatura brasileira. Basta ver que não há muita divergência de objetos entre eles, a não ser quando se trata de produção mais recente ou contemporânea; aí sim os valores intrínsecos de cada uma dessas correntes acaba se manifestando na seleção das obras tidas como interessantes ou relevantes.

    O cânone não é simplesmente uma determinação arbitrária de algum grupo ou corrente, mas a sedimentação gradual de uma série de estudos. Se determinado canône alternativo não consegue fundar uma tradição consistente de estudos, ele não se firma e fica limitado a um nicho departamental, fadado a desaparecer tão logo seus fundadores se aposentem.

    Dito tudo isso, passo à questão do valor das obras literárias implicadas num cânone. Nem sempre as obras incluídas em determinado cânone são aquelas consideradas as melhores sob algum critério predominante. Na verdade, a maioria dos cânones são formados em sua maior parte por termos médios, por obras meramente representativas de certos períodos ou tendências. Dificilmente um cânone se pauta pela excelência das obras que o integram; lembrando que um cânone não se confunde com uma seleção particular de textos feito por uma pessoa ou grupo de amplitude limitada; um cânone é o resultado de uma tradição de estudos, tradição em algum nível institucionalizada, não necessariamente em âmbito acadêmico.

    Contudo, é inegável que todo cânone apresenta um modelo de excelência, de relevância, mas para isso contribui menos a opinião individual dos estudiosos envolvidos do que um consenso construído através do tempo, o que não quer dizer que tal consenso esteja fundado sobre princípios consistentes.

    Espero ter contribuído para a discussão.

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