Todos sabem do caso do fechamento do cinema Belas Artes. Parece que agora o prédio poderá ser tombado, o que impede reformas – mas não, ao menos temporariamente, o fechamento do espaço.
Sou daqueles que vai periodicamente ao Belas Artes (ontem mesmo fui ver Noites de Cabíria). Há vários motivos para isso: o ingresso é em média mais barato, a localização é privilegiada, a programação faz beeeem mais meu estilo… Fico muito triste com o fechamento, ainda que temporário, do cinema. Justo agora, que o André Sturm parecia ter encontrado parceiros para substituir o HSBC, até ano passado investidor do cinema.
Enfim, a movimentação pró-Belas Artes surtiu algum efeito (até o Serra se manifestou), e também teve seus críticos. E é aqui, neste ponto, que o caso fica interessante. Serviu para definir algumas de minhas diferenças em relação aos “liberais médios” – por favor, não tomem isto em sentido pejorativo. Serve apenas para marcar a diferença em relação ao senso comum liberal, e nem sempre “senso comum” é ruim. Ponto parágrafo.
As manifestações no site Ocidentalismo (que tem alguns textos muito bons, recomendo) foram três, de três autores diferentes e com a mesma ideia-base, por assim dizer: um empreendimento mercadologicamente fracassado não deveria ser sustentado a não ser por si próprio. Um mantra do liberalismo, muito justo em se tratando de empresas em geral. E, espero demonstrar, falho no caso do Belas Artes.
Antes de comentar um a um os textos, uma breve reflexão: toda ação estatal no sentido de preencher lacunas do capitalismo é maléfica aos princípios liberais? A resposta a esta pergunta define boa parte do ânimo com que uma pessoa avalia o caso. Por isso, acho honesto dar minha resposta: não, nem toda ação estatal é ruim nesses termos. E digo mais: especialmente no caso cultural.
Entendam bem: “preencher lacunas” pode ser um conceito um pouco perigoso, pois se pressupomos lacunas é porque existe um modelo ideal não-satisfeito pela realidade. Como esse modelo seria em larga medida subjetivo (no caso cultural principalmente), e a verificação dessas lacunas depende do modelo, a ação estatal estaria sujeita às arbitrariedades e aleatoriedades de um modelo específico.
Para tornar as coisas mais claras: um dado modelo de cultura tem considerado benéfico garantir espaço para produções brasileiras de cinema, valendo-se de leis sobre a quantidade de sessões que cada cinema deve exibir de filmes nacionais. É um caso de ação estatal preenchendo lacunas. Nesse caso específico, discordo das leis, embora concorde com a ideia de que o cinema nacional deveria ter uma boa posição em seu mercado – ou seja, para mim, o princípio (ou a intenção) por trás da lei está corret0; o método é que é ruim ou questionável.
Meu objetivo agora é mostrar que a visão liberal apresentada pelos artigos n’Ocidentalismo está errada em seus princípios, o que turva seu julgamento a respeito do mérito no esforço de salvação do Belas Artes.
1.
O primeiro texto é o de Leandro Oliveira, que já começa com a ressalva de não ter uma ligação sentimental com o Belas Artes, em parte por ser um “aglomerado pouco charmoso de salas de exibição ligeiramente desconfortáveis”. O “ligeiramente” deixa escapar que a diferença para os Cinemark da vida não é assim tão distante – embora eu deva ressaltar que a sala 3, de nome Oscar Niemeyer, é bem ruim por ser quase reta – talvez seja uma homenagem oblíqua (ops!) ao arquiteto. Ok, move on.
Leandro não era mesmo familiar ao cinema, como se depreende desta pérola:
Quanto à programação, sinceramente, nada que o diferenciasse dos demais cinemas de shoppings – muito mais apropriados e modernos.
E eu sou a Madonna. Uma simples olhadela nas programações dos Cinemarks de São Paulo mostra o quão inteiramente despropositada é a sentença citada acima. Desafio qualquer pessoa a mostrar coincidência entre as programações. Acho que o único filme desses de shopping a passar no Belas Artes foi o Tropa de Elite 2. Há coincidências, como Ilha do Medo do Scorsese, que ficou muito mais tempo no Belas Artes do que em qualquer outro cinema, mas são exceções. A rede social, que tem um certo apelo cult, ficou menos tempo em cartaz no Belas Artes do que o documentário sobre a vida de José Saramago.
Mas enfim, Leandro ainda tem mais a dizer:
O cheiro de decadência me causa urticárias e disputando lugar com outros cinemas comerciais o Cine Belas Artes seria sempre um lugar decadente – pouco charmoso e sem funcionalidades como um bom café ou estacionamento. E se existem lugares mais qualificados e rentáveis, com programações mais criativas ou recursos mais adequados ao mercado atual, por que não deixar que eles explorem o mercado?
Há muito de criativo nas programações dos cinemas de shoppings, não é verdade? Todos os lugares, desde o Shopping Butantã até o Shopping Metrô Itaquera, passam os mesmos filmes, e ou são blockbusters ou são… blockbusters! Mas enfim, isso é apenas a mostra do erro em que Leandro incorre: considerar que o Belas Artes é igual e disputa o mesmo “mercado” com o PlayArte. Só dá para defender isso apelando à sinonímia forçada entre programações e às leis do mercado, que teoricamente privilegiam o que tem mais qualidade.
O erro, portanto, está em assinalar a falência do Belas Artes dentro de um sistema que não é o dele; é como se eu dissesse que a loja de bicicletas deveria falir porque, oras, existem concessionárias de carros. Embora à luz fria possa parecer que tanto um carro quanto uma bicicleta têm o mesmo propósito – locomoção -, é inegável que se tratam de dois produtos diferentes, com públicos diferentes.
Ou seja, a retórica de Leandro esbarra na formulação do conceito por não reconhecer o status do Belas Artes em contraposição ao seu contexto. Para sua posição funcionar, precisamos concordar com o absurdo que citei acima, e isso vai contra os fatos. O Belas Artes é, sim, um cinema diferente com programação diferenciada. Partamos deste princípio.
2.
O próximo texto é do Eduardo Wolf. Vou tentar não comentar alguns detalhes, vamos nos fixar no principal: sua ressalva em relação ao primeiro texto:
Só que a questão pode ser vista por outro ângulo, que é o seguinte: que tipo de cinema o Belas Artes pretendia ser? Descontada a margem de erro de dois pontos percentuais para baixo ou para cima na minha avaliação, eu diria que queria ser um cinema de arte, de circuito independente, fora do esquema das grandes fitas comerciais. Essa seria sua vocação, sua personalidade, digamos assim.
E é claro que (pelo pouco que acompanhei do tempo que moro em São Paulo, somado ao que me testemunharam amigos daqui) o cinema cumpria essa função.
Oh. Bom, note-se que nossa crítica feita ao primeiro texto encontra aqui alguém que concorda com seu pressuposto. O Belas Artes é um cinema diferente, que traz uma programação “de arte”, diferenciada. Vamos ver o que ocorre daqui para frente:
O problema é saber se há um público para esse tipo de estabelecimento. (…) é claro que hoje, mais do que nos 50, 60 ou qualquer década que você queira escolher, leitor, há muito mais gente consumindo esse tipo de cultura cinematográfica mais sofisticada. (…) Só que esse público – que tem grana e que poderia tornar o negócio viável – já não topa mais ir a cineminha furreco, não vai para fazer pose de alternativo.
Hummm… Em termos. Eu lhes digo que nunca havia visto Bergman até a exibição de O sétimo selo, no Belas Artes, por ocasião da morte do grande diretor sueco. Conheci bons e maus novos filmes, vi alguns clássicos e experimentei outros. Revi filmes ali, para ter o gosto da tela grande (que não é exclusividade minha, mas quase uma constante no tal público citado pelo Eduardo). Em grande medida, o Belas Artes ajudou a me formar como espectador de grandes filmes. A existência do espaço proporciona a possibilidade de se formar o público. Até porque cultura não envolve necessariamente demanda comercial; muitas vezes é mais uma questão de massa crítica na sociedade.
O que importa é que Eduardo começou a ganhar mais simpatia de minha parte com esse parágrafo:
Mas fica uma questão: mesmo achando que economicamente o negócio possa ser um problema, ainda parece-me plausível a pergunta sobre se a cidade quer ou não ter um cinema assim. E a questão não é apenas dizer que não, e por isso mesmo ele está desse jeito. A Orquestra Sinfônica de São Paulo há vinte anos era o quê? A questão toda é essa: pode-se fazer negócio com cultura, e ser contra isso é coisa de chicano e de francês, ou seja, de parasita do Estado. Mas cultura essencialmente não é negócio. Cultura e conhecimento são investimentos de fundo perdido. (…). E, curioso, a sociedade capitalista mais bem sucedida do mundo gasta e gasta muito nisso (e conservadores e intelectuais old school reclamam que hoje há menos interesse ou dinheiro para isso, tanto quanto uns poucos left-liberals, pelos mesmos motivos: perder esses elementos é perder traços marcantes da cultura que define um povo, uma civilização).
Pois é. O Eduardo toca no ponto essencial do caso, a meu ver: a sociedade pode, por meio do mercado e da democracia, rejeitar algo que é e será essencial para sua formação. A manutenção da cultura, e o cinema faz parte desse processo, é uma das obrigações inalienáveis de qualquer intelectual que se preze. Mesmo que assentada em bases históricas hoje detestáveis, antidemocráticas ou preconceituosas, é preciso manter viva a História da Cultura, pois é a única forma de assegurar que permaneceremos humanos, e não os autômatos de Brave New World.
As formas culturais mais bem sucedidas no mercado são os filmes hollywoodianos, seguidos de perto pelos popstars. Ambos são bem pouco substanciais – Avatar e Titanic não conseguem chegar perto de ombrear com cineastas como Kurosawa e Kubrick. Estes devem ser preservados, caso o mercado não se encarregue disso. A Biblioteca do Congresso dos EUA costuma selecionar filmes para preservação, em especial os da old Hollywood. Fazem parte de nossa história cultural, e sem esse princípio de conservação, a própria civilização entra em perigo.
E eu aqui discutindo coisa séria… enquanto o Eduardo resolve mudar de ideia por um motivo bem peculiar.
Mas deixei para trás essas reflexões e esqueci minhas simpatias no momento em que nos aproximávamos do cinema, na segunda. Na Consolação, em frente ao cinema, entre um e outro sinal vermelho, uma aglomeração de “gente” fazia uma baderna em defesa do “cinema de rua”. (…)
Com esse público, só posso desejar que a palavra tombamento tenha outro sentido, algo relacionado à cova, a túmulo, à tumba.
Que a terra lhes seja leve.
Você vê, o cara faz um esforço para tentar me agradar e joga tudo fora com algo que pareceu meio brincalhão, mas não passa de bocolice. Lamentável.
3.
Por fim, o texto de Joel Pinheiro veio algo epigonisticamente na mesma trilha, embora seu enfoque seja na proposta de gestão estatal do espaço, o que é, nossa, meu deus, absurdão:
Alguém como o sociólogo supra-citado acredita que o Belas-Artes seja um valor absoluto, uma entidade cuja própria existência é necessária para a humanidade e sem a qual a vida não faria sentido, e que portanto justifica enormes sacrifícios (dos outros).
Não sou tããão simpático assim à ideia do Belas Artes ser sustentado pelo governo, ao menos não do modo como se propõe ou como é possível hoje. Mas é impressionante como a falta de argumentos (e olha que para rebater o Dória não precisava muito) é mascarada com um exagero nas tintas de fazer corar. Não, Joel, não é que o Belas Artes seja um valor absoluto que se sumir vai matar todo mundo. Mas ele tem um valor cultural. Uma nova loja de departamentos em seu lugar não acrescentaria nada à cidade – talvez um ou dois empregos ruins a mais.
É impressionante como os custos para o Estado (e, logo, para nós contribuintes) é sempre magnificado, ao passo que o valor do cinema é ironizado e diminuído. Sendo bem franco, o custo do aluguel do espaço é ínfimo perto das possibilidades permitidas pela existência do Belas Artes, perto do valor agregado do local.
Porque ter variedade de opções de filmes, ver coisas diferentes, desenvolver o senso crítico sem se submeter a padronizações – tudo isso é desejável segundo a ótica liberal com que vejo as coisas. Mesmo analisando do ponto de vista do mercado, a presença sustentada de cinemas alternativos possibilita aos cinemas maiores de shopping concentrar-se em seu filão – caso contrário, as distribuidoras podem empurrar um monte de tranqueiras; monopólio é ruim até para quem monopoliza.
O post de Joel termina professoral:
Não exijam dos outros aquilo que vocês mesmos não estão dispostos a pagar. Se houver demanda, novos cinemas cult surgirão e serão palco de novas e ricas experiências humanas, que gerarão memórias tão valiosas quanto as que hoje em dia temos do Cine Belas-Artes. Se não houver demanda suficiente, então talvez manter cinemas cult funcionando não seja uma boa idéia, e sessões de DVD em casa sejam a melhor pedida.
Isso é que é otimismo. É a situação win-win, e se a sociedade perder para sempre a exibição em película (quem vê cinema de verdade sabe que DVD em geral é quase uma consolação por não ter o filme original, em rolo – não se trata de fetiche, se trata de qualidade diversa, como entre um CD e uma orquestra), tudo bem. Não temos nenhuma obrigação de preservar o que é caro a nós, cidadãos, pois pode ser que nossos filhos nem queiram saber disso.
Agora, o surgimento de “novos cinemas cult” é até meio duvidoso. Restauraram o Marabá para fazer dele mais um PlayArte (claro, foi ela que pagou o preço). Não há porque acreditar que o mercado suprirá essa demanda. Porque, repetindo, demanda cultural não visa lucro.
4.
Isso, minha gente, em um site chamado “Ocidentalismo”, é muito curioso. Talvez digam que eu exagerei ao defender o Belas Artes, mas é que percebo uma espécie de “venha a nós, Mammon” nesse tipo de manifestação que iguala desiguais. Meu liberalismo passa necessariamente pela ideia de que a herança cultural deve ser preservada para (e da) sociedade, ou estamos tiranizando pela maioria. Se o mundo todo quer blockbusters, preservemos o que não é para as gerações futuras – e para as presentes, caso se interessem. E também preservemos a forma de se relacionar com eles: as salas de cinema independentes.
Talvez eu seja muito elitista, mas eu não confio no consumo do povaréu para garantir a exibição de filmes diferentes. Entregue a si mesma, a maior parte da população adoraria o Brave New World, eu garanto. Com o Belas Artes, já estava difícil convencer uma pessoa a ver filme em preto e branco. Sem o Belas Artes, talvez fiquemos na dependência da Mostra de Cinema. Ou devemos perdê-la também? Tem o sagrado dinheiro do Estado lá.
Enfim, na tentativa de fazer a “lógica de mercado” funcionar a tudo e a todos, o liberal médio corre o risco de cair na esparrela de priorizar o método (ou seja, a disputa, a competição por mais lucros) em detrimento do princípio. O princípio dos três textos acima criticados pode ser resumido em: não estamos perdendo nada de diferente, é só charminho do pessoal. No big deal.
Não perceber o erro nesse princípio leva à aplicação equivocada do método capitalista, bastante fora de lugar. Pois até os Estados Comunistas da América fazem questão de pagar impostos para preservar sua cultura e seus locais privilegiados. Eles sabem que é mais importante manter esse patrimônio do que aferrar-se a princípios que são bons para corporações, mas deficientes para descrever o que é cultural.
UPDATE: Logo após publicar este post, Leandro Oliveira resolveu mandar ver em mais um texto. Mais do mesmo (agora insistindo na falta de qualidade das salas do Belas Artes – não são as melhores, repito, mas são boas), mantenho minhas posições. Fecho apenas com mais um detalhe de reality distorted de sua lavra: ”É isso [seja lá o que for] que explica que a Osesp custe muito dinheiro mas não seja cara”. Bom, para ouvir Beethoven só paga menos de 50 reais quem é estudante. Vou juntar dinheiro para tentar ir.
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